Há escritores que não percebem nada de música [Desabafo]


Normalmente nós, leitores, pegamos em livros para visitar novos mundos, conhecer novas “pessoas”, novos seres, sair por momentos do nosso quotidiano, esquecer os nossos problemas e as complicações do nosso dia-a-dia. Por vezes acontece que aparecem determinados aspectos nos livros que estão ligados directamente com a nossa profissão. Quando isso acontece acabamos por reparar nesses pormenores que, se não fossemos dessa área não repararíamos.

Pois bem, a minha área de formação é a música, mais concretamente música erudita. Quando por vezes me surgem nos livros partes relativas à música acabo por estar mais atenta. A falar mais concretamente do livro que estou a ler, “O Mago – Mestre” de Raymond R. Feist, ontem deparei-me com o seguinte:

Músicos ambulantes tocavam flautas e estranhos instrumentos de cordas, produzindo música esquisita e polifónica, entretendo as pessoas que repousavam nos jardins ou que por ali passavam.
Laurie escutava extasiado.
-Ouve-me aqueles semitons! E aqueles menores diminutos! – Suspirou e baixou os olhos, com ar melancólico. – É invulgar, mas é música.”

Normalmente um leitor entenderia que a música era estranha. No meu caso, o que me veio à cabeça foi “mas que raio é isto?? Alguém que não percebe nada de música mas que quer utilizar termos técnicos”!
Passo a explicar. Quando o escritor diz “música esquisita e polifónica” é ridículo. Polifonia é uma técnica de composição que está principalmente associada ao Renascimento, mais concretamente a obras para coro, em que várias vozes se desenvolvem independentes e em contraponto tomando como base uma ou mais ideias musicais com o mesmo carácter. (Penso que é a forma mais fácil de explicar). Portanto, “música esquisita e polifónica” não faz de todo sentido! Principalmente se pensarmos que o autor descreve o grupo que “tocava flautas e instrumentos de cordas”. Se pensarmos num grupo deste género, dificilmente imaginamos todos os membros do ensemble a tocar a mesma melodia. Cada um terá a sua parte, sendo por isso, um grupo a tocar em conjunto. Bem, claro que se podia partir do princípio que o espanto da personagem fosse por não conhecer grupos de instrumentos, mas mais à frente no livro ele explica que andou com um grupo de bardos e que tocavam todos juntos. Conclusão: má utilização do termo.
Se fosse só este o termo, se calhar até me passava, mas a frase a seguir fez-me rir! Não imaginam as gargalhadas que dei!

Primeiro, que músico é que diria “ouve-me aqueles semitons”??? Qual é o interesse de ouvir meios tons? Cromatismos? Escalas pouco usuais? Modos que nunca tinha ouvido? Fica a pergunta no ar….
Segundo, menores diminutos??? Que raio é isso? Há acordes menores, há intervalos menores, intervalos diminutos…mas menores diminutos? Que eu saiba, tal coisa não existe na nossa convenção ocidental. Poderia até pensar que naquele mundo, para o bardo haveria qualquer coisa menor diminuto. Mas aí ainda levantaria mais questões. Quer dizer que neste mundo a música é algo completamente diferente da nossa? Quer dizer que o autor criou um novo sistema musical? Bem….isto já é especulação a mais!
Talvez a teoria mais correcta seja que o autor queria usar alguns termos do mundo musical, e acabou por tentar encaixar algumas palavras que conhecia sem saber exactamente de que é que estava a falar.
Sinceramente, até pus em questão que fosse uma falha da tradução. Procurei o original e, realmente, era assim que estava!

Concluindo, senhores escritores, se não perceberem de música, por favor não falem de coisas antes de as investigar.
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15 comentários

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23 de fevereiro de 2013 às 20:46 delete

Delicio-me com esta associação de termos que, juntos, não têm lógica nenhuma... do tipo associar "esquisito" a "polifónico"... e "menor" a "diminuto" são das coisas mais disparatadas que já li fora do meio musical... só mesmo suplantadas por "afinar as pautas" :)

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Rita
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23 de fevereiro de 2013 às 21:22 delete

Muito bem dito!

Bjs,

Rita

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Mónica Silva
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23 de fevereiro de 2013 às 23:28 delete

Interessante, se lesse esse livro acharia esses termos perfeitamente plausíveis porque sinceramente não pesco nada da área musical :P
Para quem percebe do assunto deve ser mesmo frustrante, é como dizes, se não percebem de música (e qualquer outra área já agora) é melhor não se porem com termos técnicos a ver se cola...

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p7
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24 de fevereiro de 2013 às 01:01 delete

Comigo este tipo de coisa acontece mais a ver notícias, e a reparar num erro que o jornalista cometeu, que eu sei que está errado... fico logo meia-hora a resmungar. xD

Aqui, a própria passagem que transcreves não faz assim muito sentido, mesmo para uma leiga como eu... parece que o autor se está a armar, usando termos mais específicos. :S

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Kel
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24 de fevereiro de 2013 às 01:28 delete

Oh Luís...o "afinar as pautas" é muito mais à frente!! :p Vamos começar a dizer isso nos ensaios? ;)

Rita, acho que partilhas da minha frustração não é?
Agora com o menino imagino que o blog e os livros sejam mais direccionados para o pequenino :p
Beijinhos e obrigada por comentares!

p7, foi também o que eu pensei. Também já tive ma conversa com alguns colegas, que eles defendem que se pode usar o menor diminuto..mas de qualquer das formas não é usual, e nunca seria dito num contexto assim. Enfim, quando é algo que nos é mais familiar "arrebitamos logo as orelhas" não é? ;)
Beijinhos e boas leituras

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Jojo
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24 de fevereiro de 2013 às 01:42 delete

Faço-te uma vénia... Irrita-me tanto também!Ouvir semi-tons? Eh lá pesquisem primeiro... É que nem sequer é preciso muito. São coisas minimamente fáceis!!!

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Kel
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24 de fevereiro de 2013 às 13:58 delete

Olá Jojo! Estou a ver que não sou a única a ficar irritada com estas coisas...:)
Eu agora sempre que encontrar coisas destas posto aqui no blog para nos rirmos um bocadinho :p (agora fui mázinha...)
Beijinhos e boas leituras

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Kel
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24 de fevereiro de 2013 às 18:06 delete

Ora bem, recebi um comentário da Mónica Silva, mas não sei explicar muito bem como é que eu fiz isto, eliminei-o e nem me apercebi! :s
Por isso, como recebi a notificação por email do comentário, vou transcrevê-lo para aqui:
"Interessante, se lesse esse livro acharia esses termos perfeitamente plausíveis porque sinceramente não pesco nada da área musical :P
Para quem percebe do assunto deve ser mesmo frustrante, é como dizes, se não percebem de música (e qualquer outra área já agora) é melhor não se porem com termos técnicos a ver se cola... "
Mónica, peço desculpa desta trapalhice :(

Pois é Mónica, quando os autores falam de determinadas coisas técnicas que não percebem era preferível fazerem uma pesquisa primeiro...enfim. Pelo menos há uma parte boa!..é que quando eu li aquele excerto parti-me a rir! :p
Beijinhos e desculpa esta confusão com o teu comentário!

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Mónica Silva
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24 de fevereiro de 2013 às 18:09 delete

Oh não te preocupes, não há problema nenhum, também já me aconteceu uma vez e também não percebi muito bem como xD Mistérios do blogger --'
Ainda bem que pelo menos tiraste partido do texto, nem que seja pelo qualidade humorística xD

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Kel
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24 de fevereiro de 2013 às 18:11 delete

Pelo menos este comentário já não o eliminei :p
Sim! Deu para rir e para fazer um post no blog sobre o assunto! A coisa menos positiva é que agora quando estou a ler o livro estou sempre à espera que aparecem mais pormenores deste género :(

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Ghost Reader
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24 de fevereiro de 2013 às 22:01 delete

Olá!=D

Pronto, por muito leiga que seja (e sou MUITO) neste tema, tenho que admitir que até a mim isto soa um pouco estranho.
Se os autores tivessem uma pequena ideia do quão irritante é quando se limitam a juntar termos técnicos como pseudo-entendidos em matérias das quais nem o básico apreendem, davam um tiro na cabeça antes de se atreverem sequer a expor uma treta deste género a olhares atentos como o de certos e determinados leitores....
Pronto, e depois de expor aqui a minha irritação e de matraquear as teclas do portátil até elas ameaçarem levantar voo.... Parei!xD

Bjinhos e boas leituras!**

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Kel
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25 de fevereiro de 2013 às 01:18 delete

Ficaste mesmo irritada, Rita :p
Não vale a pena! Ri-te que é melhor :p
Acredita...esta parte do livro deu-me mesmo para ti :)
Mas tens razão..estas pequeninas coisas irritam-nos e começamos a ver os livros que estamos a ler com outros olhos.
Beijinhos e boas leituras

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Fiacha
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26 de fevereiro de 2013 às 08:57 delete

Olá Kel,

Independentemente da tua excelente observação, queira apenas dizer-te que não desistar de ler esta saga, que vai ter um crescimento enorme a seguir ao livro que estás a ler e tenho a certeza que lhe irás perdoar o erro.

Bjs

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Kel
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26 de fevereiro de 2013 às 21:06 delete

Olá Fiacha,
Sim, não vou desistir. Vou continuar a ler es te livro :)E já percebi que a história dá um grande salto..depois logo verei se vou continuar com a saga ou não.
Bjs

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Rita
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17 de março de 2013 às 16:52 delete

Olá Kel. :)

Achei muito interessante o teu post porque não percebo realmente muito de música, pelo que se me aparecesse isso na obra, certamente que acharia estranhos os termos, mas passaria-me despercebido o erro cometido de certeza.

Este género de coisas, acontece-me mais a ver notícias, como a p7 refere, ou no contacto com algumas pessoas, que noto que por vezes utilizam certos termos sem o devido conhecimento do que os mesmos significam. Por exemplo, é bastante usual fazerem isso com termos do ramo da Economia, que embora não seja a minha área de estudo, já tive várias cadeiras da área em questão e acabo por reparar e torcer o nariz a algumas das coisas que são ditas...

Beijinhos

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